Seu corpo aprende a engordar? Lucas Peralles analisa por que o organismo cria padrões metabólicos e comportamentais

Diego Velázquez
8 Min de leitura
Lucas Peralles

Muitas pessoas acreditam que ganhar peso acontece apenas porque ingerem mais calorias do que gastam. Embora o balanço energético seja um dos pilares do metabolismo, essa explicação está longe de contar toda a história. A ciência demonstra que o organismo é capaz de aprender padrões ao longo da vida. Horários das refeições, quantidade de alimentos consumidos, nível de atividade física, qualidade do sono e até o ambiente em que uma pessoa vive influenciam a forma como o cérebro regula fome, saciedade e gasto energético. Isso significa que o excesso de peso não é resultado apenas de escolhas isoladas, mas também da repetição de comportamentos que, com o tempo, tornam-se automáticos. Sendo especialista em comportamento alimentar, Lucas Peralles remete que compreender esse processo é essencial para construir um emagrecimento duradouro, pois ninguém modifica o próprio metabolismo apenas seguindo uma dieta por algumas semanas.

Essa capacidade de adaptação foi fundamental para a sobrevivência da espécie humana. Durante milhares de anos, nossos ancestrais enfrentaram longos períodos de escassez de alimentos, e o organismo desenvolveu mecanismos extremamente eficientes para economizar energia sempre que percebia algum risco à sobrevivência. Hoje, porém, a realidade é completamente diferente. Vivemos cercados por alimentos altamente palatáveis, passamos mais tempo sentados, dormimos menos e convivemos com níveis elevados de estresse. O cérebro continua utilizando os mesmos mecanismos biológicos desenvolvidos ao longo da evolução, mas agora eles atuam em um ambiente de abundância, favorecendo a formação de padrões que estimulam o ganho de peso e dificultam o emagrecimento.

O cérebro aprende mais rápido do que imaginamos!

Sempre que um comportamento é repetido diversas vezes, o cérebro procura automatizá-lo para economizar energia. Esse processo, conhecido como formação de hábitos, envolve principalmente estruturas como os gânglios da base, responsáveis por transformar decisões conscientes em comportamentos automáticos. É por isso que muitas pessoas abrem a geladeira sem perceber, procuram um doce após o almoço ou sentem vontade de comer pipoca sempre que assistem a um filme. Em muitos casos, essas escolhas já não dependem da fome fisiológica, mas de conexões criadas pela repetição.

Com o passar do tempo, o organismo passa a antecipar essas situações. Antes mesmo da refeição, hormônios relacionados ao apetite começam a ser liberados, preparando o corpo para receber alimento. Essa antecipação demonstra que o metabolismo não responde apenas ao que é consumido, mas também aos padrões construídos diariamente. Lucas Peralles explica que esse é um dos motivos pelos quais mudanças radicais costumam falhar: elas tentam combater comportamentos consolidados sem modificar os mecanismos que os sustentam.

Metabolismo também é adaptação

Quando falamos em metabolismo, muitas pessoas imaginam apenas a velocidade com que o corpo gasta calorias. No entanto, o metabolismo representa um conjunto complexo de processos responsáveis por manter o organismo funcionando. Ele é influenciado pela composição corporal, pela prática de atividade física, pelo sono, pelo estresse, pela alimentação e até pela frequência com que determinados comportamentos são repetidos.

Sempre que o organismo percebe mudanças importantes, ele procura se adaptar. Dietas extremamente restritivas, por exemplo, costumam reduzir o gasto energético, aumentar a fome e estimular mecanismos que favorecem a recuperação do peso perdido. Da mesma forma, uma rotina marcada por excesso de alimentos ultraprocessados, sedentarismo e privação de sono também leva o corpo a estabelecer um novo padrão metabólico. Isso demonstra por que emagrecer não depende apenas de consumir menos calorias durante um curto período, mas de criar condições para que o organismo desenvolva novos hábitos e mantenha essas adaptações ao longo do tempo.

O ambiente influencia mais do que a força de vontade

Outro aspecto importante é que o cérebro responde continuamente aos estímulos do ambiente. Alimentos visíveis sobre a mesa, propagandas, aplicativos de entrega, horários irregulares e até o comportamento das pessoas ao nosso redor podem estimular decisões alimentares sem que exista fome verdadeira. Diversos estudos em comportamento alimentar mostram que grande parte das escolhas do dia acontece de forma automática, baseada em pistas ambientais e não em decisões racionais.

Lucas Peralles
Lucas Peralles

Isso ajuda a entender por que confiar apenas na força de vontade costuma ser uma estratégia limitada. Quando o ambiente favorece escolhas impulsivas, manter uma alimentação equilibrada exige esforço constante. Em contrapartida, pequenas mudanças na rotina, como planejar refeições, organizar a cozinha, manter alimentos saudáveis mais acessíveis e reduzir estímulos desnecessários, tornam o comportamento saudável muito mais fácil de ser repetido.

Mudar o padrão é mais importante do que seguir uma dieta

Uma das maiores diferenças entre um resultado temporário e uma transformação duradoura está justamente na capacidade de modificar padrões. Dietas podem reduzir peso durante algumas semanas, mas, se o comportamento permanecer exatamente o mesmo, a tendência é que o organismo retorne aos hábitos anteriores assim que a restrição termina.

Por isso, cada vez mais pesquisas apontam que mudanças graduais apresentam maior taxa de sucesso do que estratégias extremas. Aprender a reconhecer os sinais de fome e saciedade, organizar horários, desenvolver autonomia alimentar e construir uma rotina compatível com a realidade do paciente produzem resultados muito mais consistentes do que simplesmente seguir uma lista de alimentos permitidos e proibidos.

Lucas Peralles frisa que o objetivo não deve ser apenas emagrecer, mas ensinar o organismo a funcionar dentro de um novo padrão de comportamento. Quando isso acontece, manter os resultados deixa de depender de motivação constante e passa a fazer parte da rotina.

O organismo aprende. A boa notícia é que ele também pode reaprender!

Da mesma forma que o cérebro é capaz de consolidar hábitos que favorecem o ganho de peso, ele também possui a capacidade de construir novos padrões. Esse processo exige tempo, repetição e estratégias compatíveis com a rotina, mas é justamente ele que permite transformar mudanças temporárias em resultados permanentes.

Por fim, como indica Lucas Peralles, emagrecer de forma saudável significa muito mais do que reduzir números na balança. Significa ensinar o organismo a responder de maneira diferente aos estímulos do dia a dia, desenvolver autonomia para fazer boas escolhas e construir hábitos capazes de acompanhar o paciente por toda a vida.

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